Passeata pelo Tombamento pela UNESCO. Arq. Rasgamar

Passeata pelo Tombamento pela UNESCO. Arq. Rasgamar

Fundação Rasgamar

Os frequentadores mais assíduos do Farol de Santa Marta conhecem bem o nome Rasgamar. Surgiu como uma grife especializada em vestuário para surfistas, adeptos e jovens em geral, de propriedade de João Batista de Andrade, nativo do Farol de Santa Marta, filho do popular João Gancheiro e de dona Fausta Andrade. No piso térreo de sua residência, localizada na prainha do Farol, ele montou uma unidade simples de produção de roupas, onde se destacam os equipamentos para a produção das estampas.

Batista, como é chamado, foi estudar Administração na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, em meados da década de 1980. Ficou residindo na casa de parentes e, sempre que possível, ia pegar umas ondas na Joaquina, Praia Mole e outras. Em 1988, formado em administração e com 24 anos de idade, Batista voltou para o Farol, apesar de não haver, rigorosamente, nenhuma oferta de trabalho para a formação superior adquirida.

A leitura de uma obra sobre a vida e o pensamento do índio norte-americano Seatle, lhe marcou profundamente. A visão e a postura de Seatle frente à natureza e à vida estão reproduzidas nos folhetos e outras peças produzidas pela Rasgamar. Nas lacas de conscientização ecológica e ambiental, estão produzidas palavras do cacique. “Natureza: Os sábios te reconhecem, os peludos servem-se de ti sem piedade”. “Se os animais desaparecerem o homem morrerá dentro de uma grande solidão. Ensinai a vossos filhos que a terra é nossa mãe. Dizei a eles que a respeitem, pois tudo que acontecerá à terra, acontecerá aos filhos da terra”. E outras.

O jovem recém-formado reencontrou os antigos amigos, refez amizades e contraiu novas. Todos os contatos que ele estabeleceu tiveram como objetivo a defesa do Farol de Sta. Marta, que ele considera ameaçado. “Não podemos deixar desaparecer o espírito do lugar, porque as pessoas vão morrer. Na cidade os nossos jovens não vão conseguir viver. Meus sobrinhos, por exemplo, estão numa realidade distante da gente. Tive mais chance de evoluir porque os pais construíram um patrimônio na abundância da pesca. Hoje o Farol está cheio e onde é que eles vão morar”?

Aos poucos, o que era apenas uma fábrica de roupas foi se transformando numa espécie de ONG informal, atuando nos assuntos comunitários e na defesa do patrimônio ambiental e humano do Farol de Santa Marta. “Nossa geração é responsável por preservar o meio ambiente. A preocupação ecológica começou nos anos 1980, coisa que absolutamente não existia quando meus pais eram jovens. Nem se falava em meio ambiente aqui, porque ele não era afetado significativamente. Mas isso está bem presente e devemos tomar algumas atitudes”, afirmava Batista em março de 1997.

Entre as iniciativas concretas tomadas até agora, estão a colocação de lixeiras em vários pontos da Prainha e em locais de concentração de residências nos morros; incentivo à coleta seletiva de lixo produzido pelos moradores; as crianças da escola local são envolvidas em diversas atividades de preservação ecológica e ambiental.

Foi essa a preocupação que levou Batista e outros a permanecer quatro messes fazendo cenas em VHS das belezas e das mazelas do Farol de Santa Marta. Do trabalho resultou um vídeo de 35 minutos, onde estão registradas as movimentações dos caminhões da prefeitura para início do que seria conhecido depois como lixão da Cigana. Também foi flagrada a presença de um caminhão de uma empresa de laguna retirando areia das dunas. O esgoto escorrendo na Prainha também foi registrado no documentário.

O vídeo foi mostrado na primeira reunião realizada no Farol para a discussão dos problemas de infra-estrutura. Autoridades de Laguna e Jaguaruna, assim como os principais líderes da comunidade, se fizeram presentes. Apesar de não ter resultado objetivamente em quase nada, a reunião teve o mérito de mostrar que existem motivos de sobra para que o poder público olhe com mais atenção para o lugar.

Cabelos compridos, tatuagens no corpo, Batista não parece um nativo. Ou pelo menos não parece um nativo clássico, a começar pelo fato deque não pesca, anda misturado aos moços e moças que procuram o Farol, promove campeonatos de surfe e recolhe animais que encontra pelas praias. Nos fundos da sua casa, em agosto de 1997, estavam abrigados seis pinguins, sendo tratados e colocados n’água todos os dias: os que quiserem, podem ir embora, mas em geral eles preferem permanecer onde têm o alimento garantido. Soma-se a isso o fato de estar preocupado com a ecologia, o meio ambiente e a preservação dos sítios arqueológicos. O raciocínio dele é lógico. “Se vamos viver no futuro exclusivamente do turismo, temos que nos preocupar em receber adequadamente”, defende.

Mas as suas ideias dividem a comunidade. Suas propostas causam polêmicas e despertam ameaças de agressão física e que só não foram consumadas devidos a certas precauções tomadas. O executivo municipal não o vê com bons olhos, aplicando aquela máxima de que os amigos, tudo, e aos inimigos os rigores da lei. De qualquer modo, suas iniciativas obtêm o apoio de parcela significativa da comunidade, bem como da numerosa e tradicional família do Farol de Santa Marta.

Em determinado momento da trajetória de luta de João Batista Andrade, ele sentiu a necessidade de separar a grife Rasgamar dos esforços em prol do Farol. A criação da Fundação Rasgamar, cuja formalização legal estava em vias de efetivação no final de setembro de 1997, representa um salto de qualidade nas ações que ele empreende e lidera.

De acordo com os estatutos já registrados, a denominada Associação Rasgamar na Defesa as Natureza (ARDN) “é uma entidade cívico-cultural, ONG ( Organização Não-governamental ), de direito privado, sem fins lucrativos e não distribui resultados, dividendos, bonificações, participações ou parcela do seu patrimônio sob nenhuma forma ou pretexto, sem fins político-partidários ou religiosos, de caráter educativo e de promoção social, com prazo de duração indeterminado e se regerá pelo presente estatuto e legislação em vigor”.

 

Fonte: MARTINS, Celso. Farol de Santa Marta – A Esquina do Atlântico. Editora Garapuvu, 1997.