Farol de Santa MartaCom o Título Pharol de S. Martha, o jornal A República, de 20 de março de 1981, informa que “vai ser inaugurado por todo mês entrante o pharol construído no Cabo de S. Martha”. O mesmo periódico catarinense, editado na capital, acrescenta na capa da sua edição de 21 de abril do mesmo ano: “Consta-nos estar designado o dia 11 de junho para a inauguração do Pharol de S. Martha, neste estado. Bem escolhido o dia, por ser o aniversário da Batalha do Riachuelo, em que imortalizaram tantos brasileiros”.

No mês de maio de 1981 os principais jornais do estado reproduzem um aviso aos Navegantes do Ministério da Marinha-Repartição de Faróis, assinado Cerqueira Leite e pelo capitão dos portos do estado, Felippe O. Short, informando da inauguração. Além das acirradas disputas pela consolidação do regime republicano, Santa Catarina enfrentava naqueles meses uma violenta epidemia de febre amarela.

Por volta das 12 horas do dia 10 de 1981 o rebocador Lomba deixou o Porto da capital, com destino a Laguna. Nele seguiram, “a inaugurar o Pharol de S. Martha”, o capitão-de-fragata Leopoldino José dos Passos Júnior, diretor interno da repartição de Faróis e o engenheiro encarregado da colocação da luz, capitão-de-mar-e-guerra reformado, Short. “O aparelho de luz do citado pharol – informa A República – que deve ser inaugurado é dióptico hyper-radiante da primeira ordem e a sua luz é fixa, branca variada por lampejos brancos duplos de 30 em 30 segundos, iluminando todo o horizonte”.

Prossegue o mesmo jornal informando que “a luz vermelha fixa e lampejante, assinalará, ao rumo verdadeiro de SO 40°, a direção da zona perigosa do escolho denominado Pedra do Campo Bom, situado a 13 milhas do pharol, naquele rumo. O plano focal eleva-se a 28,60 metros (93’,8) ao nível do solo e 76,10 metros (249’,7) ao das marés de quadratura e a luz será visível a distância de 23 milhas, com tempo claro. A torre é de alvenaria e tem a forma quadrangular e cor branca, ergue-se do centro da casa dos pharoleiros, também de forma quadrangular, e cor branca”. (A República 11.06.1981)

Ao comandante Felipe O. Short, e ao diretor de faróis Passos Júnior, se juntaram em Laguna o secretário da Capitania, Durval Augusto Gomes, o francês Alinquant e o construtor brasileiro Serpa. A comitiva foi recebida no Farol por uma comissão formada pelo vice-presidente do conselho de intendência municipal de Laguna, Antônio Machado da Rosa, o secretário da mesma, Antônio Gonzaga de Almeida, e o zelador Felix Jardim de Menezes. Em seguidas todos percorreram “os edifícios em construção, ladeando a impotente torre. Foi pelo cidadão diretor das repartições gerais dos faróis convidado o cidadão Machado da Rosa a subir na torre e as 5 horas, seis minutos e 21 segundos da tarde”, a luz foi acessa. (A República 24.06.1891).

Nessa ocasião, complementa o mesmo jornal, “entusiasticamente” foi o construtor Serpa “fraternalmente abraçado e vitoriado pelos seus superiores, amigos e admiradores presentes, felicitando-o por mais uma brilhante prova da sua reconhecida aptidão científica, perseverança e peculiares sacrifícios para levar a cabo, em lugar tão falto de recursos, obra tão monumentosa que em seu gênero, é a primeira do país em grandeza, solidez e verdadeira elegância artística”.

As felicitações a Serpa tinham motivo. A estrutura física do Farol de Santa Marta fora levantada sob seus cuidados. Chegara em Laguna com alguns camaradas, mestres em diversos ofícios, tendo recrutado em laguna os ajudantes a serventes, entre os quais Eliziário Patrício e Malaquias Valério.

Rapidamente a torre fora levantada, bem no centro da casa dos faroleiros, sendo usados materiais abundantes nas imediações, como as pedras, e a areia e barro para argamassa, na qual era usado óleo de baleia. Serpa também supervisionou a montagem da escada feita em bronze, com 147 degraus, que vai da base ao topo da torre, mais cinco degraus usados pelos faroleiros para alcançar as lentes, num total de 147.

“Enquanto o povo que rodeava a grande torre entusiasticamente admirava os fachos de luz que se desprendiam da lâmpada, esbatendo-se nas alterosas ondas do oceano e nas lindíssimas lagoas que bordam a velha e tradicional Laguna, descia a comissão a imponente torre que perpetuará por séculos e séculos o nome do construtor Serpa e o patriotismo dos chefes de repartição dos faróis”. (A República 24.06.1891)

Antes do “banquete” servido aos convidados, o “afável construtor” José Gomes Serpa convidou todos a tomar um copo d’água. “Durante o mesmo banquete, foram levantados diversos brindes”. O jornal federalista O Pharol, editado em Laguna, registrou a inauguração, acrescentando dela participado muitas “pessoas desta cidade e da Jaguaruna”. (O Pharol 19.06.1891)

De acordo com o Auto de Inauguração do Pharol de Santa Martha do Estado de Santa Catarina, ou seja, a ata da solenidade, “estando o aparelho de luz pronto a funcionar foram acessas simultaneamente as seis mechas concêntricas do combustor da referida lâmpada e ato contínuo retiradas as cortinas da lanterna do farol, foi a luz exibida para todo o horizonte”. Pelo mesmo documento ficamos sabendo de outras presenças, como a do engenheiro fiscal da Ferrovia Teresa Cristina, João Caldeira Messeder; o chefe da Estação Telegráfica de Laguna, José Goulart Rollin; os cidadãos Jhon P. Litleton C.E., Estevão Coelho Rebello, Felix Jardim de Menezes, Vitorino Alves da Silva, Antônio Zeferino de Sá; e o presidente da Intendência de Jaguaruna, José Maurício dos Santos.
No exato momento em que o Farol de Santa Marta foi acesso pela primeira vez, as 17 horas, 6minutos e 21 segundos do dia 11 de junho de 1891, nascia o pequeno Chico André.

A mãe sempre contava que quando nasceu, disseram assim:

-O Farol acendeu!
O parto foi terminado com o corte do cordão umbilical, sendo o menino lavado e vestida a primeira roupa. Então a mãe falou:
-Agora vocês me alevantaram, me arrastam um pouquinho e me abram a janela, que eu quero ver a luz do Farol.
Francisco João André passaria toda a vida ligado ao Farol. Ainda na Carniça conheceu Intervina Batista do Carmo, que já tinha uma filha, fruto de relação com Carlos Bill, também da Carniça. A filha, Dona Fausta, recorda daqueles dias: “Minha mãe se juntou com meu padrasto, Chico André, e ele veio pescar aqui. Aí fizeram um ranchinho de palha. Carregou a madeira lá dos morros, nas costas, e fizemos um ranchinho pra morar”.

 

Fonte: MARTINS, Celso. Farol de Santa Marta – A Esquina do Atlântico. Editora Garapuvu, 1997.

 

Leave Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

clear formSubmit