Os sambaquis do Farolsambaqui

Ao viajante que está chegando ao Farol de Santa Marta não passam despercebidos os enormes sambaquis, sítios arqueológicos milenares, testemunho da presença de importantes contingentes humanos no continente americano há pelo menos quatro mil anos. Os amontoados de conchas que tanto chamam a atenção se constituem, na verdade, nos maiores sambaquis do mundo. A afirmação é dos especialistas, com base no resultado de muitos anos de pesquisas, iniciadas em 1876, feitas por arqueólogos e outros técnicos.

“Era em Laguna – assegura o padre João Alfredo Rohr que – que se situavam os maiores e mais imponentes sambaquis do mundo”. A situação geográfica de Laguna, incrustada no delta do Rio Tubarão, garantia fartura de alimentos do mar, dos rios e das lagoas, favorecendo o afluxo dessas populações.

Os responsáveis pelo aparecimento dos sambaquis “viviam nas grandes planícies sedimentares do litoral, junto as lagoas, lagunas e desembocaduras do rio, zonas ricas de peixes, moluscos e crustáceos, os quais, a par da caça e de frutas silvestres, constituam a sua principal alimentação. Consumiam os moluscos, amontoavam as cascas e moravam sobre elas, porque constituíam um lugar seco a planície úmida. Desta maneira, geração após geração e, muitas vezes, povo após povo, ocupando o mesmo monte de conchas, durante milênios, dava-lhe alturas fantásticas de dez, vinte e mais metros, com centenas de metros de comprimento”.

À medida que o casqueiro ganhava altura, “tornava-se também ponto estratégico, para vigiar a aproximação dos inimigos e dos cardumes de peixes. De mais a mais, era lugar arejado, isento de mosquitos e répteis venenosos”.

Sendo um lugar de moradia, verifica-se nos sambaquis características de cozinha, sendo encontrados restos de carvão, cinzas e vestígios de fogueiras, “além de grande quantidade de ossos de peixes, aves e mamíferos; pinças de crustáceos, cascas de tartaruga, espinhos de ouriço. É comum encontrar nos sambaquis ossadas de baleias, muitas vezes parcialmente carbonizadas”

Com hábitos diferentes dos nossos, os homens e mulheres que viviam nos sambaquis não possuíam, por exemplo, cemitérios. Entretanto, sepultavam seus mortos “no lugar mesmo onde morriam, no chão da própria casa”. O morto “continua pertencendo a família. Por isso encontramos, sepultados nos sambaquis, numerosos esqueletos humanos”, junto dos quais, muitas vezes, se encontram machados de pedra, pontas de flechas ósseas, ossos de baleia, ou pedras grosseiras, rodeando ou cobrindo sepultamento. “Muitos esqueletos acham-se envolvidos em ocre vermelho, que lhe da cor de sangue; outros acham-se rodeados de areia branca das dunas”.

Foram encontrados nos sambaquis, junto aos esqueletos, objetos de adorno, feitos de pedras, ossos ou dentes de mamíferos perfurados. São achadas pequenas vasilhas de pedra, “perfeitamente polidas, que possuem forma de aves, peixes ou mamíferos, talhados em pedra duríssima. São famosos zoolitos ou artefatos zoomorfos, que constituem verdadeira escultura pré-histórica”. Nas camadas superiores muitos arqueólogos e mesmo curiosos e amadores, encontravam resto de cerâmica, ou melhor, cacos de panela de barro cozido.

“Cada sambaqui é um museu natural de objetos antiquíssimos”, salienta o padre. “As datações, feitas através do teste de carbono 14, revelam que os sambaquis mais recentes têm a idade de 1.500 anos, enquanto os mais antigos possuem ao redor de oito mil anos. São, portanto, mais antigos que as pirâmides do Egito”.

Infelizmente, ao longo de anos, os sambaquis foram sendo destruídos, usado para os mais diversos fins. Não foi só em Laguna que isso ocorreu. Segundo já citado João Alfredo Rohr, “a antiga estrada da base aérea de Florianópolis e outras estradas do interior da ilha de Santa Catarina foram construídas com conchas de sambaquis. A pista do aeroporto de Joinville, também foi compactada com conchas de sambaqui. Todas as antigas estradas de acesso e do interior da ilha de São Francisco foram calçadas com conchas de sambaquis. O mesmo se deu com as antigas estradas dos municípios catarinenses de Garuva, Araquari, Imbituba, Laguna e Jaguaruna. Podemos imaginar o tesouro imenso de material arqueológico, que, desta maneira, foi levianamente desperdiçado e destruído”.

A partir dos resultados das pesquisas desenvolvidas pelos arqueólogos, foi criada a primeira lei Catarinense, pioneira no país, destinada a proteção dos sambaquis. Foi a lei número 228, de 23 de agosto de 1955, publicada no Diário Oficial do Estado em 9 de setembro do mesmo ano, dispondo sobre “sambaquis e outras jazidas arqueológicas”.

Já no seu artigo primeiro proibia “em todo o território do Estado de Santa Catarina a exploração econômica ou a destruição, para qualquer fim, das jazidas arqueológicas conhecidas como sambaquis, casqueiros ou ostreiros”. O artigo sexto assinalava que “o material conchífero estéril dos sambaquis, só poderá ser aproveitado para a fabricação de cal, aterros, pavimentação de estradas ou qualquer outro fim, depois de completo estudo cientifico dos mesmos e a juízo de uma comissão de especialistas”.

A comissão de especialistas só foi nomeada através de portaria do então governador do Estado, HeribertoHülse, em fins de 1960, cinco anos após a lei haver sido aprovada, sancionada e publicada no Diário Oficial. Fizeram parte da citada comissão o vice-diretor do Museu Nacional e diretor da Divisão de Antropologia da instituição, Luiz Castro Farias; o paranaense José Loureiro Fernandes, representante do patrimônio histórico a artístico nacional; Oswaldo Rodrigues Cabral, representando o instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina; o diretor do Departamento Estadual de Geografia e Cartografia do Estado, Carlos Buchele Júnior, e o padre Rohr. (O Albor 26.11.1960)

Com a lei federal número 3.924, de 1961, foi proibida a destruição ou mutilação dos sambaquis e demais sítios arqueológicos em todo o território nacional. “ Infelizmente, porém, poderosos interesses econômicos e mesmo interesses políticos das prefeituras municipais prevalecem até hoje sobre a lei e a cultura e os derradeiros restos dos sambaquis acabam se transformando em cal, adubos e corretivos de solos ou, ainda, são jogados, como saibro, no leito das estradas”.

De 1976 para cá, ano em que Rohr escreveu as linhas acima, muita coisa mudou e o que resta dos monumentais sambaquis da região é constantemente vigiado, seja pela própria população, ou pelas autoridades federais, principalmente. Isso não significa que as ameaças de devastação completa estejam afastadas. Existem muitos que estão de olho nas conchas.

 

Fonte: MARTINS, Celso. Farol de Santa Marta – A Esquina do Atlântico. Editora Garapuvu, 1997.

Estudo Sócio -Arqueológico. GEOMINER, 2006.

Estudo Sócio -Arqueológico. GEOMINER, 2006.